Conforto em dose dupla

Conforto em dose dupla

Capa: Conforto em dose dupla

Publicada em maio de 2010, após dois anos de carência para adaptação do mercado da construção, a NBR 15.575, norma de desempenho para edifícios habitacionais de até cinco pavimentos, teve prazo de obrigatoriedade mais uma vez adiado, para novos estudos e análises. Entre os pontos mais polêmicos, a determinação de parâmetros para isolamento térmico e acústico é uma das razões para o prolongamento dos processos de revisão.

 

Um dos materiais mais beneficiados por avanços tecnológicos nos últimos anos, o vidro figura no centro das atenções quando o assunto é desempenho acústico. Embora os laminados ofereçam ótimos níveis de isolamento, com redução de até 45 decibéis, sistemas de envidraçamento duplo ganham espaço crescente no mercado da construção, por assegurarem desempenho termo-acústico ainda superior. “Com a sua aplicação, pode-se quadruplicar o isolamento térmico e obter uma melhora de até 30% no isolamento acústico, e de mais de 20% no controle solar, quando comparado ao vidro monolítico”, afirma a gerente de operações da Fanavid, Danila Ferrari.

 

Vidro Insulado Fanavid

Insulado da Fanavid

 

Originalmente voltados para atender a necessidade de atenuar níveis de ruído mais elevados, no caso de indústrias, casas de show e aeroportos, por exemplo, os vidros duplos e insulados têm se popularizado em decorrência da demanda mundial por uma arquitetura mais sustentável. Sua aplicação é cada vez mais comum em prédios comerciais e até em residências, em projetos que buscam redução mais significativa nos gastos com energia para o resfriamento dos ambientes.
“Os segmentos de hotelaria e hospitalar usam vidros duplos há mais tempo e com mais frequência, mas é nítido o aumento da especificação para edifícios comerciais e residenciais”, afirma Claudia Mitne, gerente de marketing da GlassecViracon. ”Um número crescente de prédios comerciais apresenta áreas envidraçadas extensas, que vão do piso ao teto, o que representa um maior potencial de aumento nos ganhos de calor. Além disso, pessoas, equipamentos de escritório e luz artificial funcionam como fontes secundárias de calor dentro dos edifícios. Daí a importância de dar ênfase à do calor no interior da edificação.”

 

Duplo ou insulado?

 
Por que o vidro duplo é chamado de insulado? Segundo Claudia Mitne, o vidro insulado é conhecido como vidro duplo por ser fabricado com pelo menos duas lâminas, separadas entre si por um perfil de alumínio que forma uma câmara de ar vedada por dupla selagem. No interior desse perfil há um dessecante (sílica gel) responsável por manter os vidros desembaçados. “Ao absorver a umidade e eliminar a condensação, essa tecnologia evita o efeito ‘parede fria’ e torna o insulado um ótimo isolante térmico e acústico”, explica a gerente.

 

O diretor da Divinal Vidros José Antônio Passi ressalta que nem todos os vidros duplos são insulados. “O vidro insulado é chamado de duplo por ser composto por dois vidros separados nas bordas, formando uma cápsula hermeticamente vedada. O termo insulado significa ilhado, separado”, afirma Passi. “O vidro duplo que não é hermeticamente vedado funciona na redução de ruído, mas é mais suscetível a embaçamento e entrada de água, entre outros problemas.”
A vedação pode ser feita artesanalmente ou por um sistema de prensa, em um processo totalmente automatizado. “A rigor, não seria nem correto chamar o vidro insulado de vidro duplo, já que existem opções com três camadas de vidro e duas de câmaras de alumínio, por exemplo”, acrescenta Passi.

 

Duplos insulados da Divinal Vidros aplicados em escritório

Duplos insulados da Divinal Vidros aplicados em escritório

 

 

Versatilidade

 

As vantagens técnicas do vidro insulado são ligadas, especialmente, à potencialização do controle térmico e acústico do projeto. “O sistema é insuperável quando a intenção é aproveitar ao máximo a luz natural, com bloqueio da radiação solar”, afirma Passi. Aliado a outras tecnologias, ele pode apresentar variados níveis de desempenho, por meio de um ajuste apurado de entrada de luz, calor e ruído, na medida em que pode agrupar pelo menos dois tipos diferentes de vidros em sua composição, combinando benefícios e características de cada um de acordo com as necessidades do projeto. “Quando produzido com vidro temperado ou laminado, por exemplo, oferece maior segurança. Se combinado com vidro refletivo ou low-e, permite reduzir a transmissão de calor sem afetar a transmissão de luz, garantindo excelente desempenho térmico e luminoso”, afirma Claudia Mitne.

 

O vidro insulado pode ser aplicado em janelas, portas, coberturas e fachadas, em ambientes climatizados ou refrigerados, além de locais que exijam isolamento acústico, como estúdios de gravação e bibliotecas. “Ele é capaz de criar barreiras sonoras que podem ser ajustadas para funcionar em faixas de frequência específicas”, explica Evódio de Paula, gerente de operações da beneficiadora PKO. O conforto acústico é obtido pela associação da câmara de ar com vidros de espessuras diferentes ou, ainda, pelo uso de vidros especiais para isolamento acústico. “Os insulados podem combinar o que há que de mais moderno em vidros no mundo. Já chegamos a aplicar a tecnologia low-e em conjunto com o Privacy Glass”, exemplifica o gerente.
As espessuras da câmara e dos vidros a utilizados são fatores que determinam maior ou menor desempenho do produto. A Divinal Vidros fabrica o produto em dimensões que variam de 200 x 200 mm a 4500 x 2500 mm, com espessuras de 12 mm a 60 mm. 

 

Máquina produtora de vidros insulados da PKO

Máquina produtora de vidros insulados da PKO

 

 

A especificação de vidros insulados envolve um estudo de todos os fatores que darão conforto ao ambiente, como a incidência de calor e de ruído. “Os demais insumos, como alumínio, vedação, forro, etc. também devem garantir tal conforto”, alerta Evódio, da PKO.
Quanto à instalação, Passi recomenda atenção especial com o caixilho a ser utilizado. “Se não estiver acompanhado de um caixilho tratado para a finalidade acústica e térmica, o vidro sozinho não desempenhará o papel desejado.” “Para que a performance do insulado seja otimizada, essa esquadria deve ser dimensionada em função do desempenho que se quer dar ao projeto.” 

 

As vedações devem ocorrer em todos os pontos de contato e as partes ocas dos perfis têm de ser preenchidas com material acústico, como madeira, gesso e manta. Também é preciso estar atento à aplicação do baguete, para que ele não comprima o conjunto do vidro. 
“Quando a finalidade é atenuar a primeira barreira de frequências sonoras, deve-se voltar o lado de maior espessura para o lado externo da janela.” 
Com o passar dos anos, o ar desidratado dentro do vidro insulado pode apresentar uma névoa esbranquiçada. Uma selagem não adequada ou a eventual deformação dos perfis costumam causar infiltração de água e decorrente condensação. “Nestes casos, o conjunto precisa ser removido para uma manutenção envolvendo a troca do secante”, diz Passi.

 

Segundo o diretor da Divinal, a gama de benefícios que o vidro duplo é capaz de agregar já justificaria seu custo adicional. Se especificado de forma correta, garante, a redução de gastos com ar condicionado ou iluminação artificial paga em curto prazo a diferença de preço.

 

PRINCIPAIS COMPONENTES DO VIDRO INSULADO:

 

Espaçadores metálicos – Perfis de alumínio com microfuros que definem a largura da câmara interna e armazenama sílica;

Sílica – Dessecante para tirar a umidade que fica no conjunto durante a montagem;

Butil (primeira selagem) – Responsável por impedir que a umidade penetre no interior da câmara de ar ou gás;

Polissulfeto (segunda selagem) – Vedante secundário mais usado no mundo, estrutura o conjunto, protege e auxilia a primeira selagem a manter a câmara livre de umidade.

Outro produto para uso em vidro duplo é o hot melt. Por suas propriedades de vedação à umidade, pode ser aplicado como única selagem, para a vedação final, feita com máquinas especiais.