Da arte digital ao artesanato

Da arte digital ao artesanato

Capa: Da arte digital ao artesanato

Atividade milenar empregada na produção artesanal de peças com as mais diversas finalidades, o glass fusing, ou fusão de vidro, é uma das mais difundidas e exploradas técnicas de moldar o vidro de forma criativa e artística. Com o auxílio de corantes específicos e a sobreposição de alguns retalhos do material, que são levados ao forno a temperaturas acima dos 800o C, pratos, vasos, porta-velas e luminárias transformam-se em belos e exclusivos objetos artísticos.

 

Nas mãos da arquiteta Kit Brandão, do Ateliê Kiri Design, em São Paulo, a arte do glass fusing pega carona em variadas técnicas de arte digital e design gráfico para a criação de pinturas, mosaicos, objetos utilitários, acessórios e luminárias decorativas. “Como tenho formação e atuação profissional na área de arquitetura, a primeira parte da produção de meus trabalhos é o projeto, feito no computador, onde uso programas que vão do Autocad ao Photoshop.

 

Com todos os detalhes decididos, explica a artista, os vidros são cortados e muito bem lavados. “Com um pincel, faço a pintura diretamente no vidro. Depois de seco, cubro com uma nova camada de vidro do mesmo tamanho, também muito limpo. As duas camadas vão ao forno para a fusão a 840°C.”

 

Embora trabalhe com projetos pré-estabelecidos no computador, a artista garante que o forno sempre tem sua parcela de contribuição no resultado da obra. “É sempre uma surpresa abri-lo, por isso digo que as peças são únicas, mesmo usando o mesmo projeto; bolhas, textura e tom das cores são detalhes que o forno ajuda a definir”, descreve.

 

Além do fusing, que basicamente consiste em unir dois ou mais vidros por sobreposição e aquecimento do material, a arquiteta lança mão da técnica do slumping, que permite dar forma ao vidro por meio de moldes, sem que ele precise chegar ao estado fluido. “Uso esta técnica para trabalhar peças com curvatura”, afirma Kit. Neste caso, para que o projeto seja bem sucedido, é preciso que a temperatura do forno seja elevada até o ponto em que o vidro se torne viscoso, adaptando-se aos moldes em que estão acomodados. Com a redução da tensão superficial e da viscosidade, o vidro deforma-se sob seu próprio peso pelo efeito da gravidade, adquirindo a forma dos moldes, que podem ser de aço, cerâmica ou mesmo de gesso.
 

 

Encantos do vidro

 
Formada em arquitetura pela FAU-USP e envolvida em atividades artísticas desde a adolescência, Kit Brandão deixou seu trabalho com projetos de edificações para dedicar-se à arte e ao artesanato, especializando-se em técnicas como mosaico, tecelagem e cerâmica, até descobrir o vidro, que se tornou sua grande paixão. “Há cinco anos, estava testando materiais para projetos de luminárias e descobri as pastilhas de vidro. Amei o resultado da textura com as cores fortes e a transparência e passei a pesquisar pastilhas artesanais”, lembra. Então não tive dúvidas: comprei o forno”, conta.

 

A preferência pelo vidro é atribuída por Kit a diversos fatores, mas os que mais chamam sua atenção são as possibilidades de explorar o brilho e a transparência do material. “Minha verdadeira paixão são os objetos com luz. E nada melhor do que o vidro para ampliar as possibilidades de combinar luz e transparência para trabalhar efeitos e cores vibrantes”, enfatiza a arquiteta. “Além de permitir criar qualquer desenho com qualquer cor, amo o vidro por ser um material que, apesar de frágil, é eterno. Não amassa, não risca, não perde o brilho, não amarela ou perde a cor.”

 

Entre luminárias, painéis, pratos, pequenos objetos e acessórios, a produção da artista já chega a centenas de unidades. Entre os destaques, ela cita as luminárias maiores, em forma de torres, e os painéis, que permitem explorar várias técnicas e todas as possibilidades do vidro.
Suas peças são comercializadas em lojas ou produzidas por encomenda, no caso de projetos e produtos exclusivos desenvolvidos para arquitetos.