Revista Vidro Impresso

Tecnologia

Ninguém é de ferro

De casas de veraneio a retiros na montanha, vidro é material soberano em projetos dedicados ao lazer e ao descanso

Juvet Landscape Hotel, na gelada região noroeste da Noruega

Vidro e lazer. Duas palavras que parecem casar-se perfeitamente no mundo da arquitetura e da decoração, sobretudo quando o intuito é relaxar. Prova disso não falta nos cada vez mais envidraçados projetos voltados para quem está em busca da tão sonhada pausa da correria diária. Integrados, iluminados e visualmente desobstruídos, resorts, hotéis, retiros e casas de veraneio evidenciam quanto o vidro é elemento soberano em momentos de conforto e descontração. 

 

Diversos em suas propostas, em geral tais projetos voltam-se a um benefício principal: a chance de se desligar da rotina e “esquecer da vida”. “Em suas férias, as pessoas geralmente procuram novas experiências e lugares diferentes daqueles a que estão acostumadas no dia a dia. O vidro é o único elemento de um ambiente que favorece a interação visual entre um quarto de hotel, por exemplo, e a paisagem deslumbrante dos Alpes suíços, ou entre uma casa de praia e o mar”, observa o gerente de marketing da Cebrace, Remy Dufrayer

 

Retiro no inverno -  O Juvet Landscape Hotel, na gelada região noroeste da Noruega, é cercado por uma riquíssima natureza, com direito a montanhas de neve, florestas e cachoeiras. Assinado pelo Jensen & Skodvin Arkitektkontor, o projeto explora a paisagem com mínimas intervenções. Os vidros duplos são aplicados em finos perfis de alumínio, amenizando interferências e intensificando a experiência visual

 

Piscina interativa - No Resort Be Tulum, na costa mexicana, o arquiteto argentino Sebastian Sas optou pelo vidro nas bordas para criar o efeito de linha infinita entre o azul da piscina e o do mar. Outro intuito foi fazer da piscina um elemento interativo, ao permitir que as pessoas sejam vistas nadando

 

 

Que o vidro é considerado um dos mais nobres materiais da arquitetura moderna, capaz de conferir beleza e sofisticação inigualáveis, isso já não é mais novidade. Associado porém às mais recentes tecnologias de controle solar e a sistemas avançados de instalação, o material torna-se alvo número 1 em aplicações cujos benefícios vão muito além da estética, sem abrir mão dela em momento algum. “Fruto de anos de desenvolvimento tecnológico, o vidro passou a ser um recurso primordial em todos os tipos de projeto”, comenta o engenheiro Ricardo Macedo, da Hedron, empresa especializada na aplicação arquitetônica do vidro. “Trata-se de um material sem similar, do qual se tira proveito em uma infinidade de circunstâncias.” 

 

 

Seja em retiros na montanha, estações de inverno ou casas de veraneio, o que se vê mundo a fora é um uso irrestrito do material, que, invariavelmente, reúne soluções ideais de integração entre os espaços internos e externos, propiciando vistas panorâmicas, iluminação abundante e conforto térmico. Normalmente o intuito central é harmonizar cada aspecto do projeto com seu entorno e permitir aos usuários uma experiência de interação plena e irrestrita com a paisagem em qualquer espaço ocupado, seja ele interno ou externo. “De paredes e divisórias a grandes fachadas e claraboias, o vidro traz luz e energia para dentro dos ambientes”, ressalta Macedo. 

 

Esquadrias da Tecnofeal suportam grandes folhas de vidro em casa de férias no Guarujá

 

“Na arquitetura moderna já se tornou praticamente impossível pensar em conforto, lazer e descontração sem associar esses atributos ao uso do vidro”, diz a arquiteta Anna Rezende, coordenadora do curso Design de Interiores, da Universidade Anhembi Morumbi. “Em áreas de lazer internas, por exemplo, os vidros aumentam a sensação de liberdade e amplitude”, comenta. A par disso, a arquiteta Cristiane Schiavoni lembra que os vidros estão cada vez mais resistentes e seguros. “Isso possibilita que sejam usados em vãos cada vez maiores, conferindo imponência ao projeto. Adicionalmente, tratamentos antirraios UV permitem sua aplicação em coberturas e fechamentos diversos, com o conforto térmico adequado.”

 

Para cada necessidade

 

Portas, janelas e grandes superfícies – fixas ou móveis –, fechamentos de áreas de convívio e de grandes vãos, bay-windows, cercas, guarda-corpos, bordas e fundos de piscina, paredes, banheiras e spas com vista panorâmica, varandas e terraços. A lista parece não ter fim para citar as tendências mais comuns nos projetos atuais destinados ao lazer e ao descanso. “Hotéis, resorts e casas de temporada terão necessidades específicas de aplicação de acordo com o uso, mas o que vai definir isso, de fato, é a região em que forem erguidos”, observa Macedo. 

 

 

Para uma correta utilização do vidro, lembra o arquiteto Sidney Quintela, deve-se levar em conta o clima e suas mudanças sazonais para especificar as características técnicas mais indicadas. “É muito comum, em regiões quentes, que ambientes envidraçados se tornem verdadeiras estufas”, comenta o arquiteto, autor de projetos em regiões de altas temperaturas, como o Nordeste e o Centro-Oeste.

Na Nova Zelândia, os designers do Fat Hippo Design Group usaram vidros duplos de tom esverdeado para potencializar a beleza visual da água e da neve ao longo das estações. Em plena comunhão com o cenário ao redor, a casa de férias é transparente nas faces frontal e traseira, permitindo que se contemple a vista através dela. Instaladas em esquadrias de alumínio, as chapas são fixas na fundação de concreto abaixo do nível do chão

 


De fato, uma das principais funções do vidro está ligada ao conforto térmico. “Em regiões quentes, a utilização de vidros de proteção solar é uma tendência e uma necessidade”, ressalta Remy Dufrayer, da Cebrace. “O vidro é um elemento-chave nesse aspecto, uma vez que pode reduzir a temperatura interna em até 10 graus, caso do Habitat, da Cebrace, por exemplo”, comenta o gerente. “Já no caso de regiões mais frias, como estações de inverno, é comum recorrer aos vidros duplos, ou insulados”, acrescenta. “Por contarem com câmara de gás entre as chapas, esses vidros aliam conforto térmico e acústico, preservando a desejada integração visual”, aponta o arquiteto Gil de Camillo

 

 

Os vidros de controle solar são também indicados para regiões frias, diz o gerente de arquitetura da Guardian, Lamartiny Gomes. “No caso dos vidros Low-e, ou baixo-emissivos, a condutibilidade térmica é menor, o que permite a entrada de calor por meio de radiação solar e inibe sua saída. A aplicação em unidades insuladas potencializa o benefício”, explica o gerente. “Com diferentes fatores de reflexão solar, que filtram determinadas faixas de luz e calor, os vidros baixo-emissivos garantem um resultado final do envidraçamento totalmente controlado e dimensionado para cada projeto.” 

 

 

Entre as linhas da Guardian, Gomes cita os vidros SunGuard e ClimaGuard como os mais indicados para ambientes que requerem conforto térmico e controle de transmissão luminosa. “O UltraClear, por sua vez, é um vidro com baixos teores de ferro na composição, favorecendo a máxima transparência e garantindo neutralidade na aplicação de cor.”

 

 

Seguros e versáteis

 

Para o diretor geral da beneficiadora Conlumi, o envidraçamento voltado ao entretenimento é o que mais exige dos transformadores em matéria de tecnologia e sofisticação. “Segurança e conforto estão em primeiro lugar para essa modalidade”, diz o diretor.  Além de fatores como grau de reflexão interna e externa, índice de transmissão luminosa e de isolamento termoacústico, a escolha do vidro deve considerar os níveis de segurança exigidos pelas normas da ABNT para cada tipo de aplicação. “Em instalações auto-portantes internas, por exemplo, em que o principal requisito é a total transparência sem a necessidade do caixilho, os vidros temperados de segurança são os mais indicados”, informa Macedo, da Hedron. “Já em casos em que o rompimento pode resultar em acidentes, como em pisos, coberturas e guarda-corpos, os vidros devem ser laminados, multilaminados ou ainda laminados e temperados.”

 

 

Efeito voyeur. Na costa mediterrânea da Espanha, a Jellyfish House chama a atenção pela arrojada piscina instalada no piso superior. Enquanto o fundo envidraçado espalha reflexos pela casa, uma lateral transparente expõe os movimentos de quem está nadando

 

 

Quanto aos materiais que compõem as estruturas de fixação, a escolha mais comum costuma ser pelas esquadrias de alumínio. “Dependendo do tamanho do vão, há necessidade de uma estrutura auxiliar de aço ou madeira”, observa o engenheiro da Hedron. “O alumínio é um grande aliado nesse processo, pelo seu baixo custo, leveza e resistência à corrosão. fator importante no caso de ambientes à beira-mar”, aponta. Claudio Passi, da Conlumi, concorda quanto às vantagens das esquadrias de alumínio. “Quando se trata de isolamento térmico e acústico, no entanto, as de PVC oferecem melhor desempenho”, acrescenta. 

 

 

 

Cada vez mais recorrente, também, tem sido o uso do vidro em projetos de piscinas, tanto em visores como em bordas inteiras ou até mesmo no fundo. “O vidro é um material com características mecânicas conhecidas e pode perfeitamente ser usado como piso ou fundo de piscina, vigas laterais, paredes etc.”, diz Macedo. “Porém, como é um material que pode se quebrar, deve-se usar um coeficiente de segurança bastante alto quando ao calcular  o dimensionamento. Outro detalhe importante: o caixilho deve ser de inox e o sistema de vedação cuidadosamente projetado e executado.”

 

Conforto e interatividade

 

Exemplo emblemático das múltiplas possibilidades de aplicação do vidro em resorts, o Aqua Dome Thermal Resort é um complexo termal situado no coração dos Alpes Austríacos. Brindado por uma vista paradisíaca das montanhas em todas as direções, o projeto faz uso extensivo do vidro em variados ambientes e instalações especialmente projetadas para o relaxamento. É o caso do SPA 3000, área que abriga os chalés e conta com fachadas envidraçadas de mais de 8 m de altura. 

 


“Os vidros estão por toda parte, na fachada, nas cúpulas termais, nos guarda-corpos da piscina, no Spa e no fechamento dos chalés, em elementos decorativos, divisórias, no jardim de inverno e até nas lareiras”, afirma Dagmar Kofler, gerente de marketing do empreendimento, cujo projeto arquitetônico é assinado pelo escritório austríaco Schnögass+Nußbaumer Ziviltechniker. “Criamos um desenho aberto, com domos de vidro no fechamento das piscinas de água térmica, para propiciar vista panorâmica das belas montanhas de Ötzal, além de garantir alto grau de incidência luminosa”, afirmam os arquitetos. Os vidros temperados de segurança de alto desempenho são fornecidos pela Gig Holding.  

 

 

Em Marbela, na costa mediterrânea da Espanha, uma casa de veraneio recém-inaugurada pelos arquitetos holandeses do Wiel Arets Architects chama a atenção pela ousadia com que abusou do material em diversas e arrojadas aplicações, entre as quais se destaca o impressionante fundo da piscina que, instalada no piso superior, com vista para o mar, interage de forma única com o andar de baixo, produzindo belos reflexos azul turquesa por toda a casa quando banhada pela luz solar. “O vidro também aparece em uma das laterais da piscina, na qual foi instalada uma chapa de 6 cm de espessura, e marca presença por toda a residência, em grandes portas de correr, fechamentos, painéis estruturais, nichos corredores, promovendo plena difusão da luz solar por todos os ambientes”, diz o arquiteto Wiel Arets, chefe da equipe responsável pelo projeto. “A parede de vidro cria um espetacular efeito ‘voyeur’, permitindo para quem está na sala assistir às pesssoas nadando.” Transparentes e semi-refletivos para minimizar os efeitos solares, os vidros foram fabricados pela Saint-Gobain Glass. 

 

 

Outro exemplar de resort luxuoso em que o vidro cumpre papel de destaque é o Hotel Boutique Be Tulum, na Riviera Maya, região da costa mexicana banhada pelo mar do Caribe. “Decidi usar vidro na borda da piscina pelo efeito visual que o material confere nesse tipo de aplicação. Neste caso, ele criou uma linha infinita entre o azul da piscina e o do oceano, efeito que pode ser apreciado do deck”, diz o autor do projeto, o arquiteto argentino Sebastian Sas, do Sas Architect. 

 

Obra dos arquitetos uruguaios Martin Gomez e Gonzalo Veloso, a casa de veraneio La Boyita, em Punta Del Leste, é o lugar do sonhos para quem busca paz e tranquilidade. À beira mar, o projeto teve como norte a valorização dos melhores ângulos visuais, sem deixar de lado a proteção das áreas internas. Além da vista panorâmica, as portas de correr envidraçadas criam transição fluida entre os ambientes

 

 

“Além disso, acho interessante explorar o uso do vidro em diferentes níveis, possibilitando com que se possa  ver as pessoas nadando e brincando na água e transformando a piscina em um elemento interativo e protagonista no projeto.” 

 

 

Com um arsenal de hotéis, retiros e casas de férias no portfólio, os arquitetos italianos do Architrend são adeptos incondicionais do vidro em seus projetos. “Como nosso foco é sempre criar extensas superfícies transparentes e espaços vibrantes, nossa linguagem arquitetônica recorre ao vidro em todas as circunstâncias”, dizem. “A arquitetura moderna é dominada por transparência, e é claro que o vidro se torna cada vez mais presente nos projetos contemporâneos, desempenhando tanto funções decorativas como estruturais.”  

 

 

Já na Home Spa, na Eslováquia, os arquitetos do Architekti optaram por perfis de suporte mais leves e sutis, de modo que tornassem as barreiras entre o o interno e o externo menos perceptíveis. O sistema de fixação empregado para os vidros da fachada foi o austríaco JOSKO, formado por esquadrias de alumínio e madeira invisíveis. O objetivo central foi criar um local voltado exclusivamente para relaxar. “A mais importante contribuição do vidro é nos conectar com o entorno, preservando o conforto do ambiente interno”, diz o arquiteto Matúš Polák, da equipe à frente do projeto, que utilizou ao todo cerca de 150 m2 de vidros, todos triplos insulados, com alto desempenho térmico.

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